Arapaima: redes produtivas

Indígenas e extrativistas articulam-se para fortalecer cadeias produtivas sustentáveis no Médio Solimões e Médio Juruá.

Vista aérea da região de Jutaí-AM. Foto de Andreia Fanzeres/OPAN.

Vista aérea da região de Jutaí-AM. Foto de Andreia Fanzeres/OPAN.

Manaus, AM – Desde o final do mês de maio, equipes da OPAN estão nos municípios de Carauari e Jutaí (AM) para a realização de novos trabalhos no campo da gestão territorial indígena com os povos Katukina da Terra Indígena (TI) rio Biá e os Deni do rio Xeruã na TI Deni. A iniciativa engloba também as populações extrativistas da região, nas bacias do Médio Juruá e Médio Solimões. Com o projeto “Arapaima: redes produtivas”, em execução com recursos do Fundo Amazônia, a OPAN apoia a consolidação das cadeias produtivas de pirarucu (Arapaima gigas), óleos vegetais e seringa, além do fortalecimento das organizações indígenas e extrativistas. Deste modo, poderão ampliar a geração de renda com conservação da natureza, a partir de uma maior articulação e da disseminação de boas práticas.

O coordenador do projeto, Vinicius Benites Alves, explicou que a proposta do Arapaima vem em atenção a pedidos dos povos Katukina (município de Jutaí) e Deni (em Carauari). Em 2011, eles publicaram seus planos de gestão territorial com apoio da OPAN. Documentaram consensos e estabeleceram acordos voltados às boas práticas de coleta, pesca e caça, à vigilância territorial, à saúde, à educação e outros temas. Naquele momento, os Deni elaboraram também seu plano de manejo pesqueiro. Foi a partir desses planos de gestão e de manejo que se desenhou a nova proposta de trabalho.

Entre as atividades do projeto Arapaima estão a realização de diagnósticos dos recursos pesqueiros e florestais, oficinas de capacitação sobre manejo pesqueiro e cadeias produtivas de produtos florestais não madeireiros, elaboração de planos de manejo, planos de negócio, oficinas sobre comércio justo, além da estruturação de bases de trabalho como escritórios, galpões para estocagem da produção, aquisição de barcos para escoamento e equipamentos para beneficiamento de sementes.

Além dos Katukina, no município de Jutaí o projeto contempla outros povos integrantes do Conselho dos Povos Indígenas de Jutaí (Copiju): Kokama, Kambeba e Tikuna, das Terras Indígenas Espírito Santo, Acapuri de Cima, Estação e Macarrão. Os povos indígenas querem fortalecer sua articulação com a Associação dos Extrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Cujubim (AERDSC) visando o manejo de pirarucu, além do beneficiamento, o escoamento e o comércio dos produtos florestais não-madeireiros: copaíba, murumuru, andiroba (para extração de óleo vegetal) e seringa.

A indigenista Genoveva Amorim, que atua há cerca de 15 anos com povos indígenas no Médio Solimões, explicou que a dimensão geográfica da região de Jutaí é um grande desafio. Somente a RDS Cujubim tem o tamanho do estado do Sergipe. Do mesmo modo, a ausência de políticas públicas e de escritórios da Fundação Nacional do Índio (Funai) tornam o trabalho ainda mais difícil. Um dos problemas na bacia do Médio Solimões é a dificuldade de escoamento da produção, que afeta igualmente aos indígenas e extrativistas. “Essa questão das cadeias produtivas, tanto do pirarucu quanto dos produtos florestais não-madeireiros, só vai funcionar fazendo uma grande rede dessas pessoas”, afirmou a indigenista.

De acordo com Genoveva, a necessidade de consumo dos povos da região não exige grandes montantes de dinheiro, de forma que o papel do fortalecimento das cadeias produtivas é importante muito mais por conta do serviço ambiental que essas populações prestam à região, já que ao consolidarem uma produção legalizada, terão maior controle e autonomia sobre os recursos naturais e estarão, automaticamente, diminuindo a pressão externa sobre os produtos da floresta.

No município de Carauari, no Médio rio Juruá, além da Associação do Povo Deni do Xeruã (Aspodex), estão envolvidos no projeto a Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc) e a Associação dos Moradores Agroextrativistas da RDS Uacari (Amaru). O trabalho tem como foco o manejo pesqueiro sustentável, a exemplo dos Paumari do rio Tapauá. Eles já realizaram duas pescas manejadas apoiadas pela OPAN e outros parceiros – iniciativa que recebeu recente premiação do Ministério do Meio Ambiente.

O indigenista Edemar Treuherz, há mais de 20 anos na OPAN, destacou que o principal aspecto do projeto Arapaima com os Deni é o apoio a uma produção pesqueira de qualidade e legalizada para que os indígenas possam pensar num trabalho sustentável e com viabilidade econômica. Atualmente, os Deni já têm realizado sistematicamente a contagem de pirarucu para monitoramento dos estoques pesqueiros, um dos principais pré-requisitos para conseguir autorização do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para pesca manejada do pirarucu. Agora, com o projeto Arapaima, terão mais possibilidades de desenvolver as outras etapas da cadeia: a pesca em si, a pesagem, a identificação do pirarucu, a limpeza, o congelamento e a comercialização.

O projeto Arapaima começou em janeiro de 2015 e terá duração de três anos, apoiando diretamente 5733 pessoas (1075 famílias) em uma área de 6.293.660 hectares no estado do Amazonas. Além da geração de renda e da conservação ao meio ambiente, o fortalecimento das associações é algo muito forte nesse trabalho. “Os resultados do manejo têm como fundo a organização social, a autoestima, o empoderamento e a participação com outros grupos”, conclui Vinicius Benites Alves, coordenador do projeto.

Fonte: OPAN

Saiba mais aqui.

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