Reduzir a maioridade é sinal de desprezo pela criança e adolescente, diz juíza

Para Dora Martins, juíza da Vara de Infância, é preciso cumprir as políticas públicas para menores previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente; ela aponta que “garantias do ECA serão eliminadas se maioridade penal for reduzida”

Crédito Foto: USP Imagens

Crédito Foto: USP Imagens

Nesta semana, mais um capítulo do debate sobre a internação de adolescentes em conflito com a lei ocorreu no Congresso. Enquanto o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completava 25 anos, na última segunda-feira (13), o Senado Federal aprovou, no dia seguinte, proposta que aumenta a internação de menores infratores de três para dez anos.

Para a juíza da Vara da Infância e Juventude Dora Aparecida Martins, apesar dos avanços do ECA, que é responsável pela garantia de direitos e execução de políticas públicas para crianças e adolescentes, ainda há muitas outras políticas que devem ser implantadas.

Em relação à proposta aprovada no Senado, Dora afirma que “internação não é pena. O adolescente internado deve receber a educação que não recebeu, ser tratado com trabalho psicológico, para poder voltar à sociedade melhor do que quando entrou. Qual a lógica então de aumentar o tempo da internação?”, indaga.

A juíza também alerta que a proposta de reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, aprovada recentemente na Câmara dos Deputados, vai eliminar muitas das garantias e direitos do ECA. “O adolescente vai estar exposto a uma série de riscos, mas é isso mesmo que acontece quando se reduz a maioridade”.

Confira a entrevista:

Brasil de Fato – Como você avalia o ECA nesses 25 anos?

Dora Martins – O ECA é um instrumento importantíssimo. Ele surge dois anos depois da constituição, em 1990, refletindo tudo que tinha sido criado com os tratados internacionais em relação aos direitos humanos das crianças e dos adolescentes. Esse é o avanço do ECA. Ele transforma a criança em um sujeito de direito, o que exige toda uma mudança na forma do tratamento da criança e do adolescente, e a implementação de políticas públicas para garantir esses direitos. Antes, a Febem reunia infratores e abandonados no mesmo espaço, sem distinção, porque as crianças eram uma coisa só: um problema que, quando aparecia, se resolvia.

As políticas do Estatuto foram implantadas na sua totalidade?

Os direitos que o ECA trouxe foram muitos. Direito à vida, a morar num ambiente salubre, à escola, à saúde, ao lazer, à consciência familiar, e algumas leis que decorreram depois do ECA vêm reforçando isso. Muitas políticas públicas avançaram no cumprimento ao ECA, mas, no meu entender, ele ainda não foi totalmente aplicado e respeitado. Não se deu efetividade para tudo que ele prevê em relação à proteção da criança, para que elas possam se desenvolver.

Que políticas do Estatuto são importantes, mas que ainda não foram cumpridas?

A questão da escola é importante. Mais creches, atenção à saúde, com metas que devem diminuir a mortalidade infantil e materna. Além disso, é preciso estabelecer os conselhos tutelares. 44 % dos municípios brasileiros não tem conselhos tutelares e onde tem não funciona direito. Vivemos em uma sociedade em que acreditamos que é o Judiciário que vai dar as respostas. O promotor, o delegado, o juiz vão dar a solução. O conselho tutelar aparece como um representante da própria comunidade, que vai buscar a solução ali mesmo, impedindo que uma determinada situação chegue ao Judiciário. Precisamos de uma rede social montada para aplicar políticas públicas em prol das crianças, e os conselhos são partes importante desta rede. São eles que vão apresentar o problema e buscar resolvê-lo. Mas a sociedade não sabe o papel deles ainda; nem as pessoas que são parte dos conselhos estão apoderadas do seu papel.

Por que essas políticas não são implantadas?

Um dos motivos é a falta de verbas destinadas às políticas para jovens e adolescentes. Uma cidade como São Paulo, por exemplo, tem 100 mil crianças fora da creche. Lógico que nenhum governo vai construir tudo isso em três meses ou um ano. Não colocamos tudo que o Estatuto prevê na prática, e os críticos dele falam que ele precisa ser reformado. Existe um descaso com essas políticas há muitos anos. O ECA é uma ferramenta muito precisa para garantir direitos; ele não é o problema, é a solução.

E por que não há verba para as políticas do Estatuto?

Essa pergunta tem que ser feita pro Executivo. Além de todos interesses políticos que podem existir nesse não investimento, tenho uma percepção de que se preserva no poder público que representa a nossa sociedade um olhar de desprezo sobre a criança e o adolescente. Muita gente diz defender, todos concordam que é importante investir nas crianças, mas, no fundo, há um local não nobre, não digno, para a criança e o adolescente. Por isso, os governos acabam não priorizando a educação e saúde das crianças.

Há um tempo, julguei uma ação contra o estado de São Paulo, que fechou várias Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) neonatais de hospitais públicos da cidade porque não tinha médico. O médico passava no concurso, abandonava o emprego porque não queria trabalhar na periferia, e fechavam a UTI. Não tem lógica isso, tem que dar um jeito de colocar o profissional lá e cumprir a política pública, não fechar a UTI e ignorar o problema. Tem criança nascendo lá, que precisa de cuidado. É um olhar de desprezo.

O Estado tem que olhar para a infância, e reverter o orçamento para isso. O ECA e tratados internacionais falam que os direitos das crianças têm que ser atendidos com preferência, pois são mais importantes que qualquer outro, por ser tratar de seres em formação. Não há desculpa para o Estado não oferecer para essa faixa etária toda a preferência do orçamento.

Uma proposta para reduzir a maioridade penal foi aprovada na Câmara dos Deputados recentemente. Como você analisa isso, pensando nos direitos defendidos pelo ECA?

Diminuir a maioridade penal é uma falácia. Há muitas estatísticas que mostram que 1% dos crimes violentos são cometidos por menores e, de repente, a redução aparece como a solução para toda a violência do país. Se você coloca hoje um adolescente na prisão, com máfias organizadas dentro do sistema penitenciário brasileiro, só vai retroalimentar esse sistema. Não vai produzir nenhum cidadão bom. É muito louco que a sociedade acredite que a prisão é a única solução. Temos uma sociedade doente, que descarta os cidadãos indesejados na cadeia, achando que é lá que ele vai ficar para sempre. Os ataques ao ECA no âmbito desse debate, de que ele “passa mão na cabeça de adolescente bandido”, são igualmente ignorantes. Temos que lutar para efetivar o ECA, não para que ele seja modificado como se fosse algo precário, ruim.

Existem outras propostas para, ao invés de reduzir a maioridade penal, aumentar o tempo de internação de jovens infratores.

As Fundações Casa estão distantes de atender o que o ECA prevê, que é ressocializar a criança, prepará-la para voltar a viver na comunidade. Ressocializar não é prender, mas o que temos na Fundação é uma prisão, abjeta, que descumpre todos direitos do adolescente e faz com que o adolescente retorne pior do que entrou. A internação tem que ser vista de outra forma. Internação não é pena. Pena é prender o cara porque supõe-se que ele seja adulto e fique na cadeia refletindo sobre o crime dele. A internação tem outro propósito. O adolescente vai receber a educação que não recebeu, vai ser tratado, com trabalho psicológico, para poder voltar à sociedade melhor do que quando entrou. Qual a lógica então de aumentar o tempo da internação?

O que deve ser feito para, de fato, ressocializar um jovem infrator à sociedade?

O que é um jovem infrator? Recebi um menino aqui na Vara da Infância, semana passada. Veio com a mãe. Ele tinha 11 anos e a mãe disse que não aguenta mais o filho. Imaginava que veria uma criança bem grande, mas ele era tão miúdo que parecia ter sete anos. A mãe disse que ele já apronta todas. Ele tem um irmão que está no sistema penitenciário, que o alertou para não virar bandido. E ele já disse para a mãe que não quer ser bandido. Mas ele não para na escola, vive na rua, tem péssimas companhias, o que podemos fazer para evitar que esse menino venha cair no mundo? Ele mora num cortiço com a mãe, uma escola pública com 40 alunos na sala não oferece para ele nenhum atrativo. Que professor é capaz de captar esse menino na realidade dele e que ele ache uma saída através da escola?

Ele estava apavorado porque não queria ir para o abrigo, e a mãe insistia que em casa ele não ficava. É uma criança que já está num estado de abandono, porque a mãe quer se livrar dele. Vamos supor que daqui dois anos ele apronte e vá para a Fundação Casa. O que a Fundação tem a oferecer para ele? Ela deveria garantir escolaridade, o tratamento psicológico, com uma psicóloga que deve ser boa para entender a alma desse menino. Precisaria de uma rede realmente funcionando para ajudar essa mãe, e isso não existe.

O Estado tem que, não só resolver o problema desse menino, mas olhar para o problema de um modo coletivo e amplo; começar uma política eficiente de escolarização, com professores bem pagos e conscientes para trabalhar nessas comunidades carentes, não só de bens materiais, mas de valores e afetos. E se um moleque vai preso por roubar ou matar, ele tem que ser tratado como moleque. Precisamos de uma estrutura capaz de entender o que faltou para ele, o que é preciso complementar e fazer. Dentro da Fundação Casa, ele precisa ser olhado individualmente, para saber sua história como indivíduo e o que levou esse adolescente a fazer o que fez, porque ele está em processo de formação, e há uma justificativa e algo a ser feito ainda por ele.

Agora, se você olha para esse moleque como se fosse um bandido, e quando ele chega na Fundação ele é estuprado, castigado, vai para a solitária, tem a cabeça raspada do cabelo que ele gostava tanto, apanha, você vai destituindo ele da individualidade. É o que a Fundação Casa faz cotidianamente, trata todo mundo como um bando de carneiro. Você vai falar que é muito difícil fazer tudo isso. Eu também acho. Estamos muito longe de executar tudo isso, mas é o que tem que ser feito.

A redução da maioridade penal pode ter efeitos no ECA?

A redução vai ter reflexos graves. Se um adolescente pode ser responsável criminalmente, ele não pode mais ser uma vítima protegida. O adolescente vai estar exposto a uma série de riscos, mas é isso mesmo que acontece quando se reduz a maioridade. As garantias do ECA vão ser eliminadas. É um desprezo pela criança e pelo adolescente, que vai contra toda essa construção e reconhecimento dos direitos que construíram o Estatuto. Que cidadão você vai construir a partir disso?

Fonte: Brasil de Fato, por José Coutinho Júnior

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: