Movimentos progressistas precisam estar no cotidiano das periferias

“Temos que parar de falar com os convertidos e de fazer reunião para falar de nós para nós”, diz Preto Zezé, presidente da CUFA

Países governados por presidentes de esquerda, principalmente os da América Latina, como Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia e Equador estão sendo duramente atacados por oposições agressivas e seletivas, com uma onda conservadora.

No Brasil, o Congresso eleito na última eleição em 2014, considerado o mais conservador desde a ditadura militar, já sinalizava este tipo de oposição. Pautas como a legalização do trabalho infantil, financiamento privado de campanha, retirada de direitos trabalhistas, redução da idade penal, entre outras, confirmam o caminho do legislativo ao retrocesso.

E mesmo o Governo Federal, eleito majoritariamente por trabalhadores e trabalhadoras, tem implementado medidas prejudiciais, como o ajuste fiscal.

O Portal da CUT vem fazendo uma série de reportagens sobre a atual conjuntura política no Brasil, que tem indicado alguns sinais de tentativas de golpe à democracia. Momento este, que faz com que movimentos sociais, instituições e até o Governo Federal aprofundem a reflexão e construam estratégias para trazer de volta à pauta avanços nos direitos, rumo ao desenvolvimento com inclusão social e distribuição de renda.

A Presidenta da República, Dilma Rousseff está construindo uma maior aproximação com o povo brasileiro a partir de debates intitulados “diálogos”. Recentemente a presidenta realizou o “Diálogos com os Movimentos Sociais” que aconteceu em Brasília no começo deste mês.

Foi neste encontro que o Portal da CUT fez uma entrevista com o Preto Zezé, presidente da Central Única das Favelas (CUFA), entidade que há mais de 20 anos usa o Hip Hop como ferramenta de integração e inclusão social nas periferias do país.

Essa entrevista foi feita antes da morte do filho do Preto Zezé, que aconteceu no último sábado (29). Malcon Jonas do Nascimento tinha 17 anos e foi assassinado no bairro Aldeota, em Fortaleza.  A CUT deseja ao Preto Zezé, seus familiares e amigos as nossas mais sinceras condolências por esta tragédia.

Como você avalia esse momento da conjuntura política em que setores conservadores de direita avançam e pedem o impeachment da presidenta Dilma?

O avanço do conservadorismo está se dando pela ausência do pensamento progressista. Nós avaliamos que é preciso que os movimentos sociais e sindical passem imediatamente para o convívio, principalmente onde a classe trabalhadora mora, nas periferias e nos grandes centros urbanos.

É lá que essa população está e é lá que precisamos fazer debates, discussões e estar junto, principalmente no cotidiano, para refletir. Tem muita gente que está sendo levada por uma visão única de parte da imprensa, ou se não pela visão única do debate político.

A gente tem que estar no cotidiano, tem que estar no jogo de futebol, na igreja, no dia a dia, se não fica uma só versão lá.

Houve uma melhora na vida da maioria da população, melhoras econômicas e que vieram desvinculadas do debate político. A população associa a Deus, associa ao esforço próprio e não associa que os avanços de uma sociedade de mercado, como a nossa, têm a ver com escolhas políticas.

Sobre o impeachment da presidenta, para mim, está fora de pauta. Aqui não é diretoria de um time de futebol, que a torcida fica insatisfeita com o técnico, manda ele embora e traz outro no outro dia. É um país, a oitava economia (do mundo).

Houve um processo eleitoral e a gente tem que respeitar isso. Se a gente discorda com o que está ai, vai ter outra eleição, e aí a gente vota em quem achar que é melhor.

Em nome da disputa política, tem que tomar cuidado para não levar o país para o buraco. Acho que isso tem que ser muito discutido, ter muita paciência para conversar isso com as pessoas, porque boa parte das pessoas quando você esclarece passam a refletir melhor.

Há uma insatisfação com o governo sim. Há uma insatisfação com o discurso que o governo fez na eleição e o que cumpriu depois que assumiu. E essa insatisfação tem que ser tratada de maneira aberta e sincera com a população.

E as pautas que estão no Congresso, chamadas de conservadoras, como você avalia?

Com essa fumaça da disputa política, deixam de lado o que é central para nós. O que estão sendo discutidos são os interesses hegemônicos da economia de mercado no mundo e querem acumular mais e mais.

Com esta agenda conservadora no parlamento é importante que a sociedade interprete e compreenda a conjuntura. E para isso é preciso esclarecer, conversar.

Quando você vai à população e diz que ela está pagando 1.500 reais por um jovem preso e que a reincidência é de 80%, que esse discurso de redução da maioridade penal é classista, que só tem filho de pobre, e que os policiais vão encher estas cadeias de jovens, que vão voltar pior para a sociedade, ela começa a pensar: será que a gente vai querer isso?

Quando você começa a discutir estas coisas, a população começa a refletir, a questionar. A pena é que até setores progressistas estão acuados por esta onda conservadora e sem coragem de ter uma postura clara.

A necessidade agora é você ter contrapontos. A onda conservadora avança porque você não tem um contraponto sequer de reflexão, pelo contrário.

Como fazer este contraponto?

Falta uma sintonia com o que aconteceu nos últimos 12 anos no Brasil. O país mudou, a periferia do país mudou e a maioria da classe trabalhadora melhorou de vida. Com isso tornaram-se um povo mais exigente, com um volume de informação muito maior, e justamente por isso que nós devemos fazer o debate político, para avançar na consciência crítica.  E só tem uma saída: o convívio.

Quando você vai na periferia você vê uma igreja evangélica aberta, um bar e uma boca funcionando.  Setores progressistas não têm. E não dá pra dizer que é porque não tem dinheiro ou estrutura, pelo contrário, acho que nunca se teve tanto isso. E qual debate político estão fazendo?

Não adianta fazer uma gestão e dizer que é de esquerda. Tem que fazer o debate político de conceituação, do que é uma política progressista. Do contrário, a agenda conservadora vai atropelar, inclusive o meio do nosso setor. Quer um exemplo? Se hoje você fizer uma pesquisa sobre a redução da maioridade penal na periferia e sobre a pena de morte a população aprova, porque não há nenhum senso crítico.

Temos que parar de falar com os convertidos e de fazer reunião para falar de nós para nós. Vamos pra onde não tem convertido. O crente tá lá, todos os dias com a bíblia na mão e nós queremos chegar lá, reunir todo mundo e dizer que as ideias progressistas são legais. Isso não funciona mais, “a conversinha chata que nós somos a vanguarda política não funciona mais, vira o disco!” Vamos para o cotidiano! Inclusive agora é o momento do movimento progressista tradicional aprender com o que está acontecendo no Brasil, do contrário a onda conservadora vem e vem pesada.

Há uma crise institucional, uma falência de representatividade no país?

Há um limite esgotado deste modelo de política que está aí. Agora há também que construir e discutir que não dá pra jogar tudo fora, nós temos que mudar os rumos de algumas coisas. O que nós estamos vendo é que o processo se resume, muitas vezes, ao processo eleitoral. Os parlamentares progressistas só vão na periferia em época de eleição, pra conseguir um voto.

Isso é muito ruim pra nós, achar que política é tudo igual e se distanciar. Se nos afastarmos da política, dos debates das questões centrais, será ruim para a maioria da população. E é esse os interesses destes grupos.  Eles [os conservadores] se aproveitam desta cortina de fumaça da tal crise política e colocam seus projetos na frente, esses sim são perigosos, esses sim são preocupantes. E é pra cima destes que a gente tem que ir.

Fonte: CUT, com fotos de Roberto Parizotti

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