Reconhecendo as necessidades singulares dos indígenas

Comunidades indígenas ao redor do mundo são de maneira geral menos saudáveis em comparação à maioria da população.

Líderes mundiais se preparam para um encontro em Nova York no próximo mês, ocasião em que assinarão um pacote ambicioso de objetivos do desenvolvimento sustentável. Foi amplamente acordado que os novos objetivos devem incluir todos e todas – o que significa a inclusão dos povos indígenas, muitas vezes deixados de fora.

O dia 9 de agosto foi o Dia Internacional dos Povos Indígenas. O tema do evento este ano foi o acesso dos povos indígenas à assistência médica – que permanece um grande desafio.

Comunidades indígenas ao redor do mundo são de maneira geral menos saudáveis em comparação à maioria da população. Por exemplo, na Guatemala, estima-se que a mortalidade materna entre mulheres indígenas seja três vezes maior do que entre a população feminina não-indígena.

Entre as razões causadoras dessas situações tão diferentes estão: falta de profissionais e de postos de saúde nas regiões onde vivem essas comunidades, barreiras linguísticas e discriminação contra os povos indígenas.

Ao longo dos últimos 30 anos, a Health Poverty Action vem trabalhando com milhares de membros de comunidades indígenas para ajudá-los a terem acesso a serviços de assistência médica que sejam próximos, acessíveis e adequados à sua cultural. Apesar de serem muitas as questões que impedem o acesso de comunidades indígenas à assistência médica, nossa experiência aponta três abordagens-chave:

1. Assistência adequada à cultura

Assegurar às comunidades indígenas o acesso a serviços de assistência médica adequado à sua cultura é muito importante. Muitas redes de saúde não refletem as práticas ou crenças culturais e sociais dos povos indígenas, então, uma maneira de tornar os serviços acessíveis é adaptá-los. Por exemplo, a Health Poverty Action trabalhou no Peru para introduzir práticas, como o parto vertical, em postos de saúde locais. O número de mulheres frequentadoras dos postos disparou de 6% para 83% em oito anos.

2. Combate à discriminação

O reconhecimento dos níveis de discriminação enfrentados pelos povos indígenas e o desenvolvimento de mecanismos para lidar com essa realidade são cruciais, especialmente no que tange à assistência médica materna, pois mulheres indígenas enfrentam diversos tipos de discriminação por serem pobres, mulheres e indígenas. Por exemplo, não raro profissionais da saúde tratam e falam com as indígenas grávidas de forma inaceitável, o que as desencoraja a buscar assistência novamente.

Nas planícies da região de Bale, na Etiópia, foi possível estabelecer uma conexão entre as parteiras tradicionais – que são respeitadas pela comunidade e falantes da língua – e profissionais da saúde do governo, o que resultou em um número crescente de mulheres dando à luz com segurança nas clínicas.

3. Protagonismo aos povos

Igualmente importante é empoderar comunidades indígenas para tomarem a frente dos problemas e soluções ligadas à saúde. A melhoria do acesso à assistência médica deve ter como ponto de partida a experiência dos indígenas, o entendimento holístico que têm da saúde, e uma abordagem comunitária aos eventos da vida, como a gravidez e o nascimento de uma criança.

Na Namíbia, criamos comitês para os postos de saúde com membros da comunidade San, profissionais de saúde e funcionários do governo local. A contribuição dada pela comunidade a esses comitês levou à contratação de um novo motorista de ambulância para fazer trajetos longos para os postos.

O Dia Internacional dos Povos Indígenas é uma data importante para nos lembrarmos das necessidades singulares que têm as comunidades indígenas ao redor do mundo. E também oferece uma rara plataforma coletiva para esses grupos tão marginalizados e cuja voz, muitas vezes, deixa de ser ouvida.

Fonte: FIP

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