A venda direta aos consumidores transforma a prática das famílias agricultoras

Escoar os produtos sem precisar dos atravessadores se torna realidade com as feiras agroecológicas, mas a carência de políticas públicas efetivas mantém intransponível para muitos a distância entre produtores e consumidores

 

Vivemos num mundo de contradições. Uma delas é emblemática: o planeta Terra vive uma crise de alimentos sem precedentes, ao mesmo tempo em que se desperdiça um bilhão de quilos de alimentos por ano no mundo, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A perda acontece devido a um conjunto de fatores, dos quais se destaca a grande distância entre os produtores/as de alimentos e os consumidores/as. No circuito convencional de distribuição de alimentos, os produtos percorrem várias etapas de uma cadeia que afunila a oferta dos produtos em poucas empresas distribuidoras e grandes redes de supermercados.

O artigo ‘Desperdício de alimentos no Brasil: um desafio político e social a ser vencido’, escrito pelo pesquisador da Embrapa Antônio Gomes Soares, indica que, entre 1997 e 2000, 30% das frutas e 35% de hortaliças comercializadas no Brasil foram para o lixo. “As estruturas de comercialização fazem com que esse produto demore para chegar até o consumidor final”, afirma a pesquisadora da Embrapa Hortaliças, Milza Moreira Lana, no texto publicado no site oficial do governo federal.

O problema é mundial e alternativas para enfrentá-lo já existem em muitos lugares, a exemplo do Semiárido brasileiro. Apesar de conviver com o desafio de guardar água da chuva para o consumo humano, agricultura, criação animal e uso doméstico, essa região, que equivale a quase 20% do território nacional, tem um grande potencial para a produção de alimentos saudáveis, sem aplicação de venenos – um feito cada vez mais raro num país campeão mundial de uso de agrotóxicos por anos seguidos.

No Semiárido, a infra-estrutura hídrica tem se aliado à agroecologia ou ao cultivo orgânico, principalmente, através de projetos das organizações que formam a ASA | Foto: Fred Jordão / Arquivo: Asacom

No Semiárido, a implementação de infraestrutura hídrica tem se aliado com a agroecologia ou o cultivo orgânico através de projetos levados à frente pelas organizações que fazem parte da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). Um dos resultados deste casamento é a ampliação da colheita que acontece, inclusive, em épocas de estiagem. “A gente só colhia quando chovia. A gente começou a trabalhar [com a] agroecologia e com esses princípios, agora, a gente colhe 12 meses por ano e todo dia do mês”, dispara com voz altiva seu Adelbardo Araújo, de 49 anos, agricultor familiar da comunidade de Toren, em Itapipoca (CE), que pratica a agroecologia há 10 anos.

“O debate da agroecologia começa a partir do estímulo para a produção de alimentos nos quintais, nas áreas mais próximas de casa. Primeiro, para que a família tenha alimento dentro de casa. E, quando isso acontece, a família vê que tem excedente. E ela vai comercializando, trocando. Quando ela desperta para a produção, vê que pode comercializar”, conta Cristina Nascimento, do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador (Cetra) e representante do Ceará na Coordenação Executiva da ASA Brasil.

A experiência de seu Adelbardo confirma a fala de Cristina: “Conseguimos botar um alimento de qualidade pra nossa família. Conseguimos botar produtos na feira. Tivemos uma mudança significativa. A gente começou a comercializar de porta a porta ne bicicleta e já estamos comercializando com nosso carro próprio”, testemunha ele que é um dos fundadores da feira agroecológica de Itapipoca e também faz parte da rede de agricultores e agricultoras que cuida de cinco feiras agroecológicas criadas no território de atuação do Cetra de 2005 pra cá.

“As feiras têm sido uma expressão pública bem legal da agroecologia”, assegura Cristina citando algumas das dimensões complementares da vida da família agricultora trabalhadas pela agroecologia. Uma delas é o fortalecimento da identidade de agricultor e agricultora. A outra é a produção e oferta de alimentos saudáveis. E tem também o estímulo à organização de processos coletivos. “E a feira são estes espaços coletivos, onde os agricultores vão se identificando uns com os outros e onde se busca alternativas a desafios que são comuns. E as feiras são alternativas aos desafios de comercialização”.

“Todos os agricultores que são feirantes têm a mesma felicidade, ninguém quer desistir da feira”, garante seu Adelbardo, que mais a frente na entrevista confessa a autoimagem que passou a construir depois de fazer parte do movimento agroecológico: “A gente começa a se encontrar como um agente da natureza. A gente começa a se encontrar como um construtor de uma sociedade nova”.

Atravessadores – Mas a oportunidade de participar de espaços de comercialização direta para os/as consumidores/as faz parte da realidade de poucas famílias agricultoras. Muitas ainda se encontram engessadas nas dificuldades existentes devido ao pouco investimento público em infraestrutura para armazenamento, beneficiamento e transporte, que se faz necessário para que os produtos da agricultura familiar alcancem os mercados consumidores.

“Meu projeto é ter um local fixo na sede para vender direto para os consumidores”, diz Elisângela, agricultora familiar de Pedro II, no Piauí | Foto: Ricardo Araújo

 

No norte do Piauí, no município de Pedro II, tem uma família de jovens agricultores com uma boa produção orgânica, mas que escoa a maior parte da melancia, macaxeira, alface, cheiro verde, banana e peixe por atravessadores. Os preços da venda da melancia e da macaxeira, por exemplo, para o atravessador é 50% menor do que se fosse vender direto para o consumidor. E isso traz um grande impacto no orçamento familiar. “Chegamos a vender 110 melancias, a carrada inteira para o atravessador”, conta Elisângela da Silva, da comunidade de Açude Velho, que contabiliza a comercialização de 150 a 20 pés de alface, por semana, para atravessadores que compram por um valor que varia de 30 a 40% a menos. “Meu projeto é ter um local fixo na sede para vender direto para os consumidores. Estou lutando por isso. Não sei quando vamos conseguir. Mas vou chegar lá”, diz determinada.
Para Alexandre Pires, da organização Centro Sabiá e membro da Coordenação Executiva Nacional da ASA pelo estado de Pernambuco, as famílias direcionam grande parte da venda aos atravessadores porque os mesmos têm condições de transportar a mercadoria, armazenar e processar no caso dos alimentos mais perecíveis. “Um dos argumentos usados para desqualificar a agricultura familiar é que as unidades de produção familiar estão dispersas e isso tornaria inviável disponibilizar essa infraestrutura para cada uma. Só que devemos pensar numa infraestrutura comunitária.

“Se o Estado tivesse políticas mais eficientes, teríamos iniciativas na área meio – acesso a mercado – que poderiam ser protagonizadas pelos jovens do meio rural. Há um cansaço por parte dos agricultores em não ter acesso a políticas públicas que respondam a contento as necessidades deles. Isso acaba desestimulando as famílias a seguirem na agricultura”, comenta Alexandre.

 

Fonte: ASA Brasil

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