Consciência negra e feminista

Marcha de mulheres reuniu cerca de 20 mil em Brasília às vésperas do Dia da Consciência Negra em defesa de um feminismo que leve em consideração problemas específicos causados pela questão racial

Por Gisele Brito, especial para o Observatório

Cerca de 20 mil pessoas participaram da primeira Marcha das Mulheres Negras no último dia 18 em Brasília. Poderia ser apenas mais um ato da chamada Primavera Feminista, nome dado à série de protestos protagonizados por mulheres em repúdio a Eduardo Cunha e seu Projeto de Lei N° 5.069, que dificulta o acesso ao aborto mesmo em casos já previstos em lei. Mas era mais que isso. Realizada às vésperas do Dia da Consciência Negra, a marcha foi organizada ao longo de um ano e reuniu diferentes movimentos e correntes de pensamento, em uma demonstração de articulação e força que faz questão de apontar que, se está ruim para as mulheres de modo geral, está pior para as mulheres negras.

O relatório do Mapa da Violência, realizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e divulgado este mês, apontou que o Brasil é um dos cinco países do mundo onde mais ocorrem feminicídios – assassinatos de mulheres motivados por questões de gênero. Mas enquanto entre as mulheres brancas o índice teve uma redução de 9,8%, entre as negras a matança avançou 54% entre 2003 e 2013.

Enquanto 35,6% da mortalidade materna atinge mulheres brancas, 62,8% atinge as negras, que também têm menos acesso a consultas pré-natal, segundo dados do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher de 2014.

A militância que se reuniu em Brasília avalia que a razão dessas disparidades é o racismo institucional, que, aliado ao machismo e ao patriarcado, vitimiza ainda mais as negras. Nesse sentido, a afirmação de um feminismo negro pretende ressaltar a necessidade da luta intersetorial.

“Nós entendemos que o feminismo tem que ser popular. Não faz sentido só dialogar com um feminismo liberal, pós-moderno. Então achamos importante fazer recorte de raça. Porque há questões que só as mulheres negras vão sentir. Se entendemos que o mundo é racista e patriarcal, é importante marcar essa diferença”, afirma Beatriz Lourenço, militante do Levante Popular da Juventude.

Beatriz explica que, nessa lógica, questões estruturais são mais importantes que as individualidades. Dessa forma, além de incorporar outras pautas negligenciadas pelo feminismo que não está atento a especificidades raciais, a abordagem também ressignifica pautas comuns. “A questão do aborto é muito importante. Mas, para nós, é uma questão estrutural. O aborto, sendo clandestino, atinge mais as negras e pobres, porque as brancas e ricas fazem isso em clínicas caras”, pontua.

Assim, a forte presença de mulheres negras em movimentos de moradia, na luta por construção de creches e postos de saúde, por exemplo, exemplificariam demandas mais latentes. “Não é apenas uma questão de liberdade. Mas é claro que algumas mulheres que pautam o feminismo liberal não vão conseguir entender que creche é o que as mulheres trabalhadoras demandam.”

No manifesto da Marcha, além da promoção da igualdade racial e o direito à vida, foram pautados o direito ao trabalho e a proteção às trabalhadoras negras; o direito a terra, moradia e território; a justiça ambiental; e o direito à seguridade social, à educação, à comunicação e à justiça.

“Na condição de protagonistas, oferecemos ao Estado e à sociedade brasileira nossas experiências como forma de construirmos coletivamente uma outra dinâmica de vida e ação política, que só é possível por meio da superação do racismo, do sexismo e de todas as formas de discriminação, responsáveis pela negação da humanidade de mulheres e homens negros”, afirma o documento.

Radicalismo?

A firmeza da luta muitas vezes é classificada como radicalismo. Mas, mais uma vez, ficou claro que quem violenta não é o feminismo ou a defesa antirracista. Na quarta-feira, um policial civil branco disparou pelo menos quatro tiros no meio da marcha. Marcelo Penha, de 42, é do Maranhão e estava acampado com outras pessoas no gramado do Congresso há pelo menos um mês, juntamente com um grupo que pede que as forças armadas deem um golpe de Estado e deponham a presidenta Dilma Rousseff. Na semana anterior ao ato, ele já havia sido detido por porte de arma em meio a um protesto de estudantes. Os disparos de Penha causaram confusão, mas não feriram ninguém. A polícia militar tentou intervir e atingiu militantes com gás de pimenta. Outro policial civil de Brasília também foi preso.

O homem branco diz que efetuou os disparos ao se sentir ameaçado pelas mulheres negras. Organizadoras da manifestação afirmam que ele teria feito insultos racistas. Um boletim de ocorrência foi lavrado.

 

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One comment

  1. Monique Eleotério · · Reply

    Olá, boa tarde.
    Prezada Gisele, não sou representante da Marcha de Mulheres Negras, mas sou militante negra e acompanhei o processo de construção, mesmo que forma afastada. A Marcha em nenhum momento se coloca como um movimento feminista. Acho que é fundamental a compreensão de que nem todos os movimentos de mulheres são feministas e de que não é correto e muito menos respeitoso intitular uma organização ou movimento como tal arbitrariamente. Como você mencionou em parte da matéria, participaram mulheres negras de diversos movimentos e posicionamentos políticos. Em nenhum momento no documento manifesto da Marcha há essa identificação exclusiva. Respeitar a auto-organização de mulheres negras e seu direito de se auto-identificar, levando em consideração os valores políticos e culturais que escolhem, não partindo de um julgamento universalista é fundamental para uma luta anti-racista legítima.

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