“Aqui só fica o pó”, afirma Dona Dudu

Do polo gesseiro, na região do Araripe, em Pernambuco, onde as fábricas se multiplicam a cada ano, só resta para as famílias agricultoras o pó fino do gesso, que cobre as plantas e o solo de propriedades como a de Dona Luzinete Reis, na área rural do município de Trindade

A agricultora Luzinete Silva Reis, conhecida como Dona Dudu, vê o terreno de sua propriedade ser coberto por uma camada fina de pó de gesso. Ano a ano o solo vem perdendo a fertilidade, tornando-se rígido como pedra. Depois que uma fábrica do polo gesseiro instalou-se a pouco mais de 300 metros de sua casa, a produtividade caiu na propriedade e também surgiram problemas de saúde pela aspiração do pó. No município de Trindade, região do Araripe, no Sertão Pernambuco são mais de 30 fábricas de gesso no trecho que liga a área urbana a zona rural.

Na região do Araripe 49% das famílias moram na zona rural, segundo dados do IBGE. Ao todo 11 municípios fazem parte de um território marcado pela devastação da Caatinga – mais de 80% da vegetação nativa foi retirada para dar lugar as fábricas de gesso e a bovinocultura do leite. Impactos que colocam as famílias agricultoras em estado de alerta, sejam as famílias que estão na agricultura familiar agroecológica, as em transição da agricultura tradicional para a agroecológica e ou as que ainda continuam a prática da agricultura tradicional.

Fabrica de gesso despeja pó no ar, que polui propriedades vizinhas
|Foto: Ylka Oliveira

Além dos problemas de saúde, a instalação de fábricas de gesso na região gerou problemas sociais como índice alto de exploração e abuso sexual de crianças e adolescentes.
Caminhoneiros que trafegam pelo local abordam mulheres e crianças. O gesso dessa região é considerado o mais puro do Brasil. E 90% do que é produzido aqui segue para as demais regiões do País. “Aqui só fica o pó”, diz Dona Dudu se referindo ao pó fino do gesso que deixa um rastro de destruição.

Para retirar a matéria-prima do solo, as fábricas fazem implosões de pedras que causam tremores nas casas e provocam rachaduras nas paredes. A lenha usada na fabricação do gesso agora vem do estado do Piauí. Da Caatinga pernambucana não se extrai mais. O desmatamento já alcançou nível máximo.

Dona Dudu mora numa propriedade de 30 tarefas, o equivalente a 10 hectares. Ela conta que há 40 anos quando chegou na comunidade Sítio Riacho Novo, com 15 anos de idade, acompanhada do marido, o cenário era bem diferente do que se vê hoje. Os empresários ainda não eram os ‘donos’ do pedaço. Quando eles começaram a chegar, a agricultora reuniu a comunidade, fez abaixo-assinado, denunciou ao promotor local do Ministério Público. De nada adiantou. “O povo teve medo de brigar por isso aqui e ser perseguido. Todo mundo foi desistindo e eu fiquei só. Aqui antes tinha um barreiro, mas a poluição do gesso ajudou a secar a água. As hortaliças também se prejudicam”, conta.

Plantas cobertas pelo fino pó do gesso. | Foto: Ylka Oliveira

Aos poucos a população da área rural vai cedendo lugar aos empresários do polo gesseiro. Os filhos de Dona Dudu trabalham em uma outra fábrica, um pouco mais distante da casa da família. Segundo os filhos, nesta empresa o proprietário investiu em um sistema de exaustão que deposita o pó em um reservatório construído no subsolo da fábrica.  Os filhos contam também que as fábricas na região funcionam com licença ambiental, mas algumas não pagam impostos e nem assinam a carteira de trabalho dos profissionais. Poucas implantam o sistema de exaustão que pouparia as famílias da poluição. “O direito do empresário é o mesmo do pequeno. Ele vem fazer uma fábrica no nosso terreiro para gente sofrer poluição?”, questiona Dona Dudu.

Família não pratica a agroecologia  – O polo gesseiro é uma das ameaças que impede  agroecologia de avançar no território do Araripe. Dona Dudu e a família criam galinhas, cabras, plantam coentro, salva, couve, maracujá, feijão e milho  a agricultora ainda usa veneno para o plantio do milho e feijão). Tudo que é produzido serve para consumo próprio. “Não consigo vender mais na feira. Mais não me falta mais verdura depois da cisterna-calçadão”, afirma.

Pesquisa da ANA estuda impactos no território – Esses aspectos de conflito, entre outros, foram levantados no estudo “Sistemas agroecológicos, irrigação, bovinocultura e alternativas para a convivência com o Semiárido”, realizado pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) em parceria com a ONG AS-PTA e coordenado por pesquisadores do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Práticas Agroecológicas do Semiárido (NEPPAS) da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). O estudo foi apresentado durante a Caravana Agroecológica e Cultural do Araripe, realizada de 25 a 27 de fevereiro, em Ouricuri.

Ao todo serão 18 estudos de caso realizados em 7 territórios. Após a conclusão dos estudos será lançado um manual com contribuições sobre o processo de elaboração destes, dez reportagens de rádio e uma publicação. “Esse estudo ajuda a montar estratégias de como a gente pode mostrar para o estado que pode ser feito algo, como pode haver uma intervenção. Esse estudo também vai servir para que a gente faça outros enfrentamentos como do ponto de vista da previdência social”, avalia um dos agricultores que participaram da Caravana, Seu Vilmar Lermen, do município de Exú.

As experiências de famílias que sofrem com impactos e das famílias agricultoras que seguem práticas agroecológicas serviram de exemplo para participantes como o coordenador da ASA Potiguar, Yure Paiva. O coordenador veio a Caravana para conhecer a metodologia da ANA, que poderá ser replicada durante a realização do IX EnconASA (Encontro Nacional da ASA), que acontecerá em Mossoró (RN), no segundo semestre deste ano. “Pelo histórico do Araripe o processo de agroecologia já tem algo consolidado. No nosso território ainda é transição [região Oeste do Rio Grande do Norte]. As experiências vividas aqui vão ser boas para prepararmos o nosso território para o EnconASA”, avalia o coordenador.

A região Oeste potiguar é marcada pela presença do agronegócio e a produção irrigada de banana, melão e melancia, principalmente nos municípios de Tibau e Apodí. A produção em larga escala é escoada para o exterior. As famílias agricultoras da região sofrem com a perfuração de poços que chegam a 300 metros de profundidade, prejudicando as aguadas. “Logo os assentamentos do entorno vão ficar sem água, porque só é possível perfurar até 60 metros. Essa troca aqui no Araripe vai nos ajudar a preparar o território e fazer o enfrentamento”, conclui Yure.

A região do Araripe é formada por onze municípios: Moreilândia, Exú, Ipubi, Araripina, Ouricuri, Trindade, Granito, Parnamirim, Bodocó, Santa Cruz, Santa Filomena.

Fonte: ASA

 

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