Zé Celso, Laerte, Tata Amaral, Nicolelis: cultura, ciência e democracia

“A ciência só existe quando vem do homem. A felicidade de milhões não pode ser subjugada pela ganância de uma minoria”, afirma neurocientista. “Quero o meu voto de volta”

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Não é a cultura, é o Estado que está em coma. A República foi enterrada com esse golpe, disse Zé Celso. ROBERTO PARIZOTTI/CUT

São Paulo – “O mundo hoje sabe que é golpe”, disse o cientista Miguel Nicolelis, que ajudo a repercutir internacionalmente o processo de impeachment no Brasil. No ato Grito pela Democracia, realizado neste sábado (21) em São Paulo, ele lembrou de quando foi estudante secundarista e participou de passeatas contra a ditadura. “Fui embora do Brasil para perseguir a minha utopia, ser cientista. Mas a ciência só existe quando vem do homem. A felicidade de milhões não pode ser subjugada pela ganância de uma minoria”, afirmou Nicolelis, atacando o “mafioso, medieval, medíocre” governo interino e pedindo a volta de Dilma Rousseff.

“Este Brasil não pertence aos homens brancos, milionários e alguns deles criminosos, que ocuparam o poder neste momento”, acrescentou o cientista. “Eu quero o meu voto de volta. Eu quero no Palácio do Planalto a brasileira que foi eleita por 54 milhões de brasileiros. Eu só aceito a verdadeira presidente do Brasil sentada na cadeira da Presidência da República.” Para Nicolelis, o golpe atacou “o coração e a alma” dos brasileiros: a cultura. “Todos somos artistas, somos poetas.”

A cartunista Laerte Coutinho identificou diferença entre o golpe atual e o de 1964. “Por que fechar o Congresso? Foi o Congresso que deu o golpe”, afirmou. Para ele, os partidos tradicionais estão em crise e as pessoas são convocadas a participar politicamente de uma forma difusa. Neste momento, acrescentou, é preciso se preocupar não apenas em derrotar o golpe, “mas construir o depois do golpe”, para restabelecer a normalidade democrática e retomar as demandas sociais. “Estamos no meio. Fora Temer”, disse Laerte.

Com uma mensagem em vídeo, a cineasta Tata Amaral, que está em Cannes, destacou o protesto feito por equipe e elenco do filme Aquarius. “Foi lindo, muito aplaudido”, afirmou, ressaltando a “sensação incrível” de deixar o país com Dilma Rousseff na presidência e voltar com Michel Temer no poder. “A gente apenas começou na conquista de direitos. A gente não pode e não vai voltar atrás”, disse Tata. “Sou contra o governo golpista de Temer. Não estamos à venda. Esse projeto não foi eleito.”

Ela também fez referência à extinção do Ministério da Cultura, que após pressões do meio artístico deverá ser mantido por Temer. Segundo Tata, é um órgão para estabelecer políticas e garantir inclusão e democratização, e isso se evidencia pela quantidade de autores produzindo. “Isso é uma política pública, não acontece à toa”, afirmou, manifestando também contra o fim da Controladoria-Geral da União e as ameaças ao SUS.

Com uma jaqueta vermelha e um enorme cachecol branco, o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa comentou artigo do diretor do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, para quem a cultura está em coma. “Não é a cultura, é o Estado que está em coma. A República foi enterrada com esse golpe”, disse Zé Celso, aludindo ao “espetáculo ridículo” de 17 de abril, quando a Câmara aprovou a admissibilidade do processo de impeachment. “Todos aqueles corruptos se abrigaram nesse golpe”, afirmou o diretor, referindo-se a José Serra (que lembrou ter sido presidente da União Nacional dos Estudantes) como “entreguista”.

Ao mesmo tempo, Zé Celso que o fechamento do Ministério da Cultura, agora revogado, sinaliza algo positivo, uma “revolução cultural da juventude”. “Porque cultura é uma coisa transversal. A cultura é simplesmente a coisa mais importante da vida. É a infraestrutura da vida.” Para o diretor do Oficina, “resistência” é uma palavra superada. “Você tem de re-existir”, afirmou.

Muitos participantes do “Grito” fizeram referência à mídia tradicional e às ameaças à comunicação pública. O professor Laurindo Leal Filho, por exemplo, destacou a criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que ajudou a “aumentar o patamar civilizatório da sociedade brasileira”. “A Globo é inimiga do povo, da democracia”, acrescentou.

“Não acreditem no que sai na mídia”, disse o jornalista e publicitário Chico Malfitani, um dos fundadores da torcida organizada Gaviões da Fiel, do Corinthians. “A mesma mídia que criminaliza a Gaviões e as torcidas organizadas é a mesma que criminaliza as esquerdas”, afirmou, destacando o apoio dado a movimentos como à greve dos professores estaduais e à ocupação das escolas em São Paulo. Ele lembrou ainda que há 18 integrantes da Gaviões presos há mais de um mês”, jogados na delegacia e esquecidos”, por protestar contra o desvio de recursos da merenda escolar. Há uma audiência prevista para esta segunda-feira (23).

Fonte: Rede Brasil Atual

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