Para além da lama: relatos sobre a tragédia-crime de Mariana, seis meses depois

Acompanhar o caminho feito pela lama que desceu o Rio Doce até sua foz. Conhecer o trajeto de destruição de casas, plantios e criações de animais. Saber sobre realidade local. Ouvir o que pensa quem perdeu tudo com a o rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, MG, considerado o maior desastre mundial com barragens registrado nos últimos 100 anos. A Caravana Territorial da Bacia do Rio Doce percorreu, seis meses depois da tragédia, toda a região atingida pelo rompimento da barragem de Fundão, que despejou cerca de 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos na vida local. O Ibase participou desta Caravana que, em seis dias, mostrou que, ali, foi perdido muito mais do que se pode contabilizar.

PARA ALÉM DA TERRA

Eles dizem que o que mais importa é o meio ambiente. E a gente?”

A pergunta triste e quase sem resposta foi ouvida muitas vezes nas vozes dos moradores da região de Mariana. De Mariana a Regência: ao todo, 35 municípios estiveram na chamada rota da lama. De acordo com dados da Defesa Civil de Minas Gerais, cerca de 1 milhão de pessoas foram atingidas, o que equivale a toda a população da região. De acordo com matéria publicada pela BBC, para o pesquisador da Universidade de São Paulo – USP, Marcos Ummus, o primeiro impacto da lama chegou a atingir mais de 300 mil pessoas. Para fazer a estimativa, ele considerou apenas pessoas que vivem em um raio de até 2 km do leito do Rio Doce e de seus afluentes afetados – os rios Gualaxo do Norte (que banha o distrito de Bento Rodrigues) e o Rio do Carmo. Seriam pelo menos 334.442 moradores de 40 municípios, de Mariana (MG) a Linhares (ES). População que, apesar da solidariedade vinda de diversas partes do país, se sente abandonada.

Não se trata de negar o tamanho do estrago ambiental ocorrido. Mais de 200 km² de espelho d’água foram afetados pela lama e quase 1.500 hectares completamente devastados antes mesmo que a lama chegasse ao Rio Doce. Dados do Ibama apontam que 770,23 hectares de áreas de preservação permanente foram afetadas pelo desastre. E, de tudo isso, de toda essa terra, dependia a vida de milhares de pessoas. Pessoas que perderam suas casas, seus pertences, suas vidas. E que continuam sendo saqueadas das mais diversas formas.

Em Bento Rodrigues, distrito de Mariana e local mais atingido pela tragédia, a Samarco, empresa que faz parte do consórcio que explora as minas da região e a responsável pela barragem de Fundão, limita e controla a entrada de moradores no que restou de suas próprias casas. Com isso, furtos e roubos ao que restou das casas são recorrentes.

O descaso em que vive população atingida é assustador. Durante a Caravana, o Ibase ouviu histórias que apontam que o alcoolismo tem aumentado brutalmente na região. Casos de violência sexual a mulheres também. E, apesar de todos os relatos, percebemos que as respostas dadas no pós-tragédia, tanto por parte da empresa quando por parte do Estado, estão muito aquém do necessário.

Outro ponto que preocupa os moradores da região é que a barragem de Germano, que fica dentro do mesmo complexo minerador que a de Fundão, também corre risco de romper. Dados levantados em reportagem do jornal O Tempo apontam que, em novembro, o Corpo de Bombeiros da região de Mariana registrou uma trinca de aproximadamente 3 metros na barragem de Germano.

PARA ALÉM DA MORTE

Dezessete pessoas mortas. Este é o número oficial de mortos com a tragédia de Mariana, MG. Mas, além dos corpos encontrados, milhares de outras vidas foram afetadas com a destruição de suas cidades, suas casas, seus espaços de encontro.

A vida de quem sobreviveu à lama se tornou, muitas vezes, uma busca por se adaptar a uma nova realidade. Pessoas habituadas com a vida rural, tiveram que passar a viver na cidade, mudando seus modos vida. Aqui, destacam-se moradores de municípios como Paracatu de Baixo e Barra Longa, nos quais boa parte da população estava envolvida com a produção de leite e que, após a tragédia-crime, foram alojadas pela Samarco em Mariana, cidade em que a vida urbana é mais presente. A ligação com a terra, a pecuária e a agricultura era forte dentro dessas populações, o que impacta ainda mais na reconstrução da vida destas pessoas.

Se não bastassem todas essas perdas, os atingidos pela lama da Samarco/BHP/Vale têm que lidar com um outro porém: a discriminação por parte de alguns moradores de Mariana. Não são raros os relatos de pessoas que destratam seus novos “vizinhos” por se tratarem dos atingidos. A eles, os que perderam tudo devido à negligência e a irresponsabilidade de uma empresa, é dado o estigma de culpados pela própria sorte.

Aos atingidos pela lama tóxica reserva-se ainda o controle da própria Samarco sobre as ações de assistência. Era a empresa quem determinava quantas roupas cada atingido poderia pegar das doações que vieram. Há relatos de pessoas que foram proibidas pela empresa de pegarem roupas e mantimentos além do que fosse considerado determinado, mesmo que sua família fosse grande. Fatos que fazem não ser surpreendente pilhas de doações terem sido queimadas “por falta de quem necessitasse receber”, discurso que, óbvio, não é abraçado pela empresa, mas que é dito e entreouvido pela população.

Letícia Oliveira, do Movimento dos Atingidos por Barragem de Minas Gerais (MAB – MG), que também participou da Caravana, considera grave a situação que envolve a Samarco e o atendimento à população. “Os atingidos, em grande parte, estão insatisfeitos com o que tem sido feito até agora pela empresa. Muitos estão sendo deixados de fora e estão buscando seus direitos.”, ressalta.

Outro ponto importante que envolve a presença da empresa nas decisões sobre a vida dos atingidos está no acordo assinado entre o Governo Federal, o Governo de Minas Gerais e as mineradoras responsáveis pela tragédia. A assinatura deste acordo (extrajudicial), realizada em março, prevê ações para reparar os danos sociais, ambientais e econômicos causados pelo rompimento da barragem em Mariana. Tudo isso, longe da população, em Brasília, e sem a presença de nenhum representante dos atingidos. “Este, para nós, é um grande problema. Quem deveria pensar as formas de reparação são os próprios atingidos. A situação como está gera muita angústia e muita insegurança sobre a reconstrução da vida dessas pessoas por que quem coordena e coloca os prazos para tudo é a empresa responsável pela tragédia-crime”, alerta Letícia Oliveira, do MAB.

Eduardo Barcelos, membro do GT em Assuntos Agrários da Associação dos Geógrafos Brasileiros e da coordenação da Caravana Territorial da Bacia do Rio Doce, afirma que este acordo ocorre com a desculpa de que a judicialização das ações atrasa o atendimento aos atingidos o que, na verdade, esconde que os atingidos não estão tendo oportunidade de falar, de escolher se querem fazer um acordo agora e em quais termos. “Além disso, a Justiça Federal suspendeu o inquérito da Polícia Civil de Minas Gerais que responsabilizava diretores e técnicos da Samarco com relação à tragédia-crime. Trata-se de uma situação muito desigual. O acordo é desigual frente à situação que vivenciamos hoje na Bacia do Rio Doce com a dificuldade, ou impossibilidade, de se reproduzir a vida ali”, salienta Barcelos.

Seis meses após a tragédia na região de Mariana, ainda não é possível ter a noção da dimensão dos estragos causados. Não há diagnóstico final sobre o caso. Não há, por isso, como calcular se os acordos feitos entre os poderes federal e estadual com as empresas mineradoras darão conta de todas as necessidades da população. População que tenta, diariamente, reinventar sua história.

PARA ALÉM DA LAMA

O caminho da Caravana incluía não só trilhar o mesmo rumo seguindo pela lama que escorreu da barragem de Fundão e que devastou o que veio pela frente. Para além da lama, uma das rotas da Caravana, da qual o Ibase participou, se iniciou na cidade de Catas Altas, em Minas Gerais. Entre os objetivos desta rota estava fazer um diagnóstico da ação mineradora na região.

Com pouco mais de 5 mil habitantes, segundo o último censo do IBGE, Catas Altas é um pequeno município que convive com a mineração desde o seu surgimento, no seculo XVII. Considerada uma das cidades com maior PIB do estado de Minas, lá, está presente a Mina São Luiz, instalada em uma montanha que fica acima de uma pequena comunidade local chamada Morro d’Água Quente. Esta mina faz parte do complexo minerador da região e conta com uma lagoa em que são despejados rejeitos.

Apesar do discurso de ordem e progresso que leva as mineradoras a se instalarem nestas cidades, a população do Morro D’Água Quente sente, diariamente, os impactos de conviver com este tipo de atividade. São grandes os índices de doenças respiratórias entre os moradores. Além disso, a atividade mineradora na cidade faz com que haja a suspeita de contaminação do reservatório de água que abastece a população, localizado exatamente ao lado da área da mina. Fato que, se comprovado, pode explicar alguns casos de câncer entre os moradores locais.

Outro ponto importante da visita a Catas Altas foi conhecer uma mina fora de atividade que existe no local. Abandonada há mais de 20 anos, esta mina, que foi comprada pelas empresas Vale e Saicon, possui ainda um enorme passivo ambiental para a região, com uma bacia de rejeitos também abandonada. As empresas que controlam o local defendem a reabertura desta mina, o que dobraria os impactos sociais e ambientais que os moradores do Morro d’Água Quente já são obrigados a conviver.

Conhecer a comunidade do Morro d’Água Quente foi essencial para entender que sua realidade e a tragédia-crime provocada pelo rompimento da barragem de Fundão são duas faces da mesma moeda: o modelo de grande mineração vigente hoje no Brasil e na América Latina. No primeiro caso, vimos como a comunidade sofre diariamente com os impactos gerados pela mina São Luis e pelo passivo ambiental gerado pela mina deTamanduá. No segundo, vimos as consequências do descumprimento de normas de segurança, da falta de fiscalização e negligência na atuação das empresas mineradoras e como isso pode ser trágico para as comunidades nas quais as empresas de mineração se instalam, já que essas últimas não colocam a lógica da vida como prioridade.

Fonte: Ibase

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