O antivírus político. As ocupações das escolas e o protagonismo das juventudes e a potência dos pobres. Entrevista com Silvio Pedrosa

“Uma cartografia desses movimentos certamente demonstrará que se trata não apenas de pessoas novas, mas também de novas pessoas, forjadas por uma produção de subjetividade bastante diferente de juventudes de outras épocas”, avalia o professor da rede pública do Rio de Janeiro.

As ocupações das escolas em vários estados do país podem ser compreendidas como uma “espécie de antivírus político no momento em que vivemos uma crise geral da política institucional no Brasil e na qual somos todos os dias surpreendidos com tramas palacianas de um teatro farsesco e de má qualidade”, diz Silvio Pedrosa à IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail.

Professor da rede pública de ensino no Rio de Janeiro, Pedrosa avalia que o movimento de ocupação das escolas não é apenas um “exemplo de luta democrática”, mas “é ainda mais do que isso: um exemplo de inovação na luta social e democrática, demonstrando que lutas de velho tipo precisam contar com táticas e estratégias que saibam driblar os bloqueios midiáticos e institucionais que são levantados pelo poder constituído”.

Ao comentar a autonomia das ocupações, Pedrosa critica “a esquerda partidária hegemônica”, que “pretende apenas capturar a luta desses meninos e meninas através de seus movimentos e entidades já apodrecidos pela lógica burocrática da política partidária”.

Além das ocupações, frisa, “inúmeras” manifestações estão ocorrendo no Rio de Janeiro, que em dois anos foi palco da Copa do Mundo e em breve será das Olimpíadas. Entre elas, menciona “a luta contra o extermínio da juventude pobre e negra que vive nas favelas” e “a luta das mulheres por direitos e dignidade”.

Pedrosa também afirma que o atual momento brasileiro demonstra duas questões: de um lado, que “o sistema político se descolou completamente de qualquer aparência representativa” e, de outro, que a “Lava Jato pôs a descoberto que todas as denúncias expressas por junho e o movimento que se seguiu, como os protestos contra a Copa do Mundo, acertavam em cheio nos seus alvos – estádios, Belo Monte e outras usinas, complexos petroquímicos como o Comperj no Rio de Janeiro”.

Silvio Pedrosa é professor da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro e participante da rede Universidade Nômade.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como você avalia as ocupações nas escolas em vários estados do país?

Silvio Pedrosa – O movimento de ocupações que se dissemina pelo Brasil afora em estados como São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro, Ceará e Rio Grande do Sul me parece uma espécie de antivírus político no momento em que vivemos uma crise geral da política institucional no Brasil e na qual somos todos os dias surpreendidos com tramas palacianas de um teatro farsesco e de má qualidade.

A conexão com as grandes manifestações de junho de 2013 é evidente e o movimento dá concretude e torna materiais as demandas abstratas por melhor educação que vimos nas ruas desde então (seja nas manifestações organizadas pela esquerda ou pela direita).

Em um cenário em que o sistema político se descolou completamente de qualquer aparência representativa e a Lava Jato pôs a descoberto que todas as denúncias expressas por junho e o movimento que se seguiu (como os protestos contra a Copa do Mundo) acertavam em cheio nos seus alvos – estádios, Belo Monte e outras usinas, complexos petroquímicos como o Comperj no Rio de Janeiro, para ficarmos apenas com três exemplos de pautas -, o movimento de ocupação de escolas não é apenas um exemplo de luta democrática, mas é ainda mais do que isso: um exemplo de inovação na luta social e democrática, demonstrando que lutas de velho tipo precisam contar com táticas e estratégias que saibam driblar os bloqueios midiáticos e institucionais que são levantados pelo poder constituído.

IHU On-Line – A que atribui a atual manifestação dos estudantes? É possível evidenciar uma pauta unificadora em todas essas manifestações ou elas são dirigidas às situações particulares dos seus estados?

Silvio Pedrosa – A situação de precariedade geral da educação básica no Brasil é assunto recorrente em qualquer discussão de bar no Brasil, verdadeiro lugar comum, e talvez mesmo central, da murmuração pública do cotidiano. Quase todo dia se pode ouvir alguém dizer: ‘sem educação pública de qualidade, o Brasil não vai a lugar algum’. E não é por menos. Não vamos mesmo. Essa precariedade geral é o que unifica as ocupações espalhadas pelo Brasil. O fato de que os movimentos tenham surgido em estados governados por diversos partidos evidencia que o descaso com a educação pública unifica na infâmia também o nosso sistema partidário.

“O fato de que os movimentos tenham surgido em estados governados por diversos partidos evidencia que o descaso com a educação pública unifica na infâmia também o nosso sistema partidário”

IHU On-Line – Qual é o significado político e social dessas ocupações?

Silvio Pedrosa – Esse movimento parece indicar uma série de tendências sociais e políticas. Em primeiro lugar, demonstram o protagonismo das juventudes e a potência dos pobres no Brasil de 2016. Enquanto os avós e pais dessa geração se digladiam nas ruas para endossar um sistema político completamente apodrecido, os jovens pobres lutam por direitos, sem distinguir partidos ou se deixar levar pelos aparelhamentos de entidades estudantis partidarizadas.

Em segundo lugar, uma cartografia desses movimentos certamente demonstrará que se trata não apenas de pessoas novas, mas também de novas pessoas, forjadas por uma produção de subjetividade bastante diferente de juventudes de outras épocas. Filhos de uma década de melhorias sociais no Brasil e dotados de um horizonte de futuro distinto do de seus pais, eles também são filhos de uma época em que a crise geral da escola fica cada vez mais evidente.

Não foram poucas as narrativas de professores que se surpreendiam com alunos problemáticos que se revelavam ocupantes engajados e dedicados. Nem pouco significativo é que as programações escolares das ocupações se mostrem de uma diversidade impressionante, com oficinas de arte, música, aulas sobre direitos indígenas, feminismo, discussões sobre seletividade penal e muito mais. Já herdeiros de junho de 2013, eles tomam o patrimônio comum das lutas nas mãos e o reinventam, utilizando suas habilidades tecnológicas e um ritmo veloz, próprio da sua temporalidade subjetiva, para desnortear os poderes constituídos.

Alckmin foi apenas o primeiro a ser pego de surpresa pelo fechamento relâmpago de ruas em vários pontos da cidade e do estado. No Rio de Janeiro, a mobilidade desses jovens também impressionou com ocupações e reocupações sucessivas, seja de escolas ou de instalações da Secretaria de Educação.

IHU On-Line – Essas ocupações têm alguma novidade em relação a outras manifestações que vinham ocorrendo pelo país?

Silvio Pedrosa – Muitas. Elas parecem recolher, como disse, o patrimônio comum das tradições de lutas que morrem ao se transformar em lutas tradicionais, e reelaborá-lo em novas táticas e estratégias. Em um mundo em que a mídia pode simplesmente silenciar sobre manifestações aos milhares nas ruas, eles ocupam instalações públicas e produzem eles mesmos suas mídias, difundindo informação em rede. Sem o choramingo típico com que as lutas tradicionais se referem à mídia oligopolizada no Brasil, eles invertem a relação e tentam entrevistar os repórteres das emissoras, denunciando sua parcialidade corporativa. São os estudantes ensinando aos seus professores como atingir pautas que as greves no formato tradicional em anos, talvez décadas, não conseguiram atingir.

Uma demonstração prática de algo que as esquerdas poderiam ter aprendido com sua própria história: novas relações sociais de produção levam a novas formas de organização e luta. Ao invés disso, a esquerda partidária hegemônica pretende apenas capturar a luta desses meninos e meninas através de seus movimentos e entidades já apodrecidos pela lógica burocrática da política partidária, algo que os estudantes que compõem o movimento de ocupações recusam explicitamente em notas e comunicados. São ingovernáveis.

IHU On-Line – Qual tem sido o comportamento dos estudantes que ocupam as escolas? Alguns afirmam que eles têm tido uma preocupação com o cuidado da escola em geral. O que você tem visto?

Silvio Pedrosa – Esse cuidado com a escola pega no contrapé aquela denúncia recorrente dos mais velhos, para quem os jovens odeiam a escola. Eles odeiam uma certa organização escolar – e nisso estão absolutamente certos -, que é uma organização de cima para baixo e que, não raro nas ocupações, eles descobrem negar-lhes direitos a equipamentos e materiais existentes no próprio espaço escolar, mas constroem suas próprias identidades na convivência mútua no interior desses espaços e acabam demonstrando nessas ocupações um enorme desejo de fazer desses lugares instalações menos sufocantes.

Qualquer um que já tenha pisado numa escola pública de periferia nas grandes cidades sabe que elas se assemelham a verdadeiras penitenciárias. É nesse sentido que o cuidado com a limpeza, a aparência e mesmo o aproveitamento do espaço (com hortas, por exemplo, como se viu no Rio de Janeiro) demonstram o desejo não apenas de melhores escolas, mas de outra escola, inventada e produzida no sentido comum e democrático que as ocupações tentam lhe conferir.

“Já herdeiros de junho de 2013, eles tomam o patrimônio comum das lutas nas mãos e o reinventam”

IHU On-Line – As manifestações nas escolas fluminenses já implicaram alguma conquista concreta?

Silvio Pedrosa – A combinação de diversas táticas, como atos de rua e ocupações, seja das escolas, seja das instalações administrativas da Secretaria Estadual de Educação, somou forças à greve dos trabalhadores da educação estadual (que faz parte de um conjunto ainda maior, que é o funcionalismo estadual) e conseguiram arrancar importantes conquistas de um governo bastante enfraquecido pela catástrofe financeira que ele mesmo produziu no estado. Entre elas estão, por exemplo, o fim do Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Rio de Janeiro – SAERJ a partir de 2017, a democratização das eleições das direções com consulta às comunidades escolares e a reorganização da logística do passe livre estudantil, com recargas mensais, o que vai gerar mais mobilidade aos alunos, incrementando o direito deles à cidade.

IHU On-Line – Como a sociedade fluminense tem reagido em relação às ocupações dos estudantes? Há muitas divergências sobre o tema?

Silvio Pedrosa – No plano molar, abstrato, a luta pelo direito à educação mobiliza a sociedade, dando corpo à palavra de ordem por “mais educação” que tanto tem se repetido nas ruas de todo o Brasil desde a explosão de junho de 2013, seja nas manifestações multitudinárias ou naquelas localizadas à esquerda ou à direita no espectro político-partidário. A potência do movimento de ocupações, entretanto, é a sua força de mobilização molecular, na própria concretude e materialidade da luta, ativando redes de solidariedade que passam a trabalhar com doações para a manutenção das ocupações, cooperação de midiativismo, organização de atividades, entre outras mobilizações igualmente potentes da sociedade. Nessas mobilizações os alunos dão aulas de luta por direitos.

Infelizmente, vemos também as respostas de uma sociedade cujos arranjos de poder na confluência com o estado são extremamente autoritários, violentos e mesmo assassinos. Nesse sentido, surgiram movimentos de desocupação claramente orquestrados de cima para baixo visando minar pela pressão e mesmo a violência – como se viu na invasão da ocupação do colégio Mendes de Moraes na Ilha do Governador – a resistência dos secundaristas. A triste tradição dos biopoderes territorializados do Rio de Janeiro (assolado por facções do crime organizado, milícias e mesmo o controle policial), não deixa nunca de cobrar suas faturas.

IHU On-Line – Como o tema das ocupações tem sido discutido entre professores, estudantes, pais e direções das escolas? O que você tem visto a esse respeito? Há mais unanimidade ou divergências em relação às ocupações?

Silvio Pedrosa – Como escrevi na resposta anterior, há dois níveis em que essas divergências a respeito do movimento de ocupações podem ser compreendidas. No plano molar há, claro, aqueles que apoiam abstratamente a luta pelo direito à educação, embora se oponham às formas de ação adotadas pelo movimento, mas, no geral, noto que há grande apoio da sociedade. O repúdio à violência policial com que os alunos foram retirados da instalação da Secretaria de Estado de Educação – SEEDUC na semana passada demonstra que a sociedade não tolera que jovens lutando pelo direito à outra educação sejam tratados com violência.

No plano molecular, como já frisei, muitos professores, pais e outros alunos se mobilizam em defesa dos colegas (virando, por isso, alvo de perseguições políticas pelos movimentos de desocupação, como foi o caso da professora Aluana Guilarducci, professora do colégio Mendes de Moraes – acusada, tal como Sócrates, de “corromper a juventude”, fazendo-a descrer do Estado, por seu apoio aos estudantes). Arrisco dizer que a única demonstração contrária aos movimentos de ocupação (os movimentos de desocupação) não emergem da sociedade, mas são as respostas que o poder constituído mobiliza através de seus braços mafiosos.

“Vemos também as respostas de uma sociedade cujos arranjos de poder na confluência com o estado são extremamente autoritários, violentos e mesmo assassinos”

IHU On-Line – Que outras manifestações da sociedade civil têm ocorrido com mais frequência no Rio de Janeiro e que impacto têm tido?

Silvio Pedrosa – Há inúmeras. O Rio de Janeiro, palco de dois megaeventos em dois anos (Copa e Olimpíadas), fervilha politicamente desde antes mesmo de junho de 2013 (ocupações como a da Aldeia Maracanã ou lutas como a da Vila Autódromo, contra as remoções violentas, por exemplo, são anteriores). Gostaria de destacar, entretanto, duas delas: em primeiro lugar, a luta contra o extermínio da juventude pobre e negra que vive nas favelas, cuja urgência é absoluta e que tem organizado mobilizações na constância infeliz do próprio extermínio, como nos casos recentes da chacina de Costa Barros (na qual cinco jovens foram fuzilados com 111 tiros quando voltavam de uma comemoração), que gerou uma forte mobilização, com um grande e potente ato em Madureira; e as próprias explosões dos moradores das favelas sempre que a violência policial vitima um dos seus.

Essas manifestações em geral são vistas como ‘irracionais’ ou como protestos orquestrados pelo tráfico, mas são momentos de resistência autônomos que sinalizam o modo de governança assassino desses territórios.

E, em segundo lugar, a luta das mulheres por direitos e dignidade. No momento em que o poder constituído apresenta, no âmbito municipal, como alternativa um candidato que, notória e publicamente, cometeu violência contra sua ex-mulher e vivemos uma escalada conservadora contra os direitos das mulheres, os movimentos das mulheres e a própria explosão do feminismo no debate público são antídotos importantes. Escrevo sob o impacto da notícia de um estupro coletivo na periferia da Zona Oeste do município do Rio de Janeiro, e a mobilização das mulheres nas redes, por exemplo, é grande.

Essas lutas, assim como tantas outras, não são compartimentos, mas integram um grande entrelaçamento com as próprias ocupações (onde há abertura, por exemplo, para aulas e oficinas sobre feminismo, racismo e seletividade penal e policial, como já assinalei), tecendo redes militantes que mobilizam a sociedade carioca e as sociedades fluminenses na luta por direitos.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Silvio Pedrosa – Caso me seja permitido, gostaria de pedir a atenção e o apoio dos leitores para a mobilização pela liberdade de Rafael Braga Vieira, jovem negro preso no Rio de Janeiro ainda em junho de 2013 e que vem sendo submetido a uma violência estatal absurda na condução do seu caso (foi condenado a cinco anos de prisão por porte de… Pinho Sol). Que Rafael Braga Vieira possa ser o nome dos sem-nome, o nome daqueles que integram minorias e que sofrem os descalabros que o consórcio-estado mercado lhes reserva no Brasil de 2016.

Fonte: Adital 

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