“O Brasil precisa de uma revolução no que tange ao saneamento ambiental”. Entrevista especial com Fernando Rosado Spilki

“Lamentavelmente tanto a água de poço quanto amostras de água mineral engarrafada apresentam contaminantes. À luz da regulação atual, muitas dessas amostras passariam como seguras, mas quando se analisam outros parâmetros que não os previstos em legislação, apresentam contaminação”, adverte o pesquisador

Por Patricia Fachin, do IHU Unisinos

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Fernando Spilki (foto: Feevale)

Feevale

Quando se trata de analisar a qualidade da água que consumimos, “a inclusão de novos parâmetros, especialmente microbiológicos, é prioritária para lidar com os atuais desafios de proteção à saúde púbica”, defende Fernando Rosado Spilki, professor de Microbiologia, em entrevista à IHU On-Line.

Segundo ele, é fundamental, de um lado, incluir novos indicadores de contaminação microbiológica nas análises da água, além dos coliformes fecais, sobretudo aqueles que estão “associados às doenças de veiculação hídrica mais prevalentes hoje em dia, especialmente vírus entéricos e protozoários” e, de outro, “revisar valores máximos permitidos de poluentes e contaminantes com base no risco à saúde humana, e não em uma inferência baseada na possibilidade ou não de captar água, como fazemos atualmente”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Spilki garante que investimentos complexos e rigorosos em análises microbiológicas da água trariam vantagens em curto e médio prazo, entre elas, a “redução dos índices de atendimento e hospitalização por doenças veiculadas pela água”, como as gastroenterites virais. O pesquisador também comenta rapidamente a qualidade da água no Rio Grande do Sul e na região metropolitana, onde “há uma massiva contaminação” dos corpos hídricos, “que tem origem no esgoto doméstico”.

Fernando Rosado Spilki é graduado em Medicina Veterinária e mestre em Ciências Veterinárias pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e doutor em Genética e Biologia Molecular, área de Microbiologia, pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Atualmente leciona na Universidade Feevale, Novo Hamburgo, RS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que as análises microbiológicas da água que o senhor tem feito revelam sobre a qualidade da água no Rio Grande do Sul?

Fernando Rosado Spilki – No que tange à qualidade microbiológica, a água no estado do Rio Grande do Sul reflete uma situação também observável em outras regiões do país: é relativamente fácil encontrarmos microrganismos que indicam contaminação fecal. Isso é um reflexo de nossas taxas muito baixas de coleta e tratamento de esgoto.

IHU On-Line – Além da contaminação fecal, quais são as demais razões que tornam a água que consumimos na região metropolitana do Rio Grande do Sul de baixa qualidade? Quais são os dados mais recentes da sua pesquisa sobre esse tema?

Fernando Rosado Spilki – A água distribuída para consumo atende os parâmetros regulatórios previstos em normativas. O problema é que além dos parâmetros previstos, há uma série de outros possíveis contaminantes (que encontramos com frequência) que ainda não são monitorados rotineiramente. Se o leitor for ao médico e os primeiros exames, mais comuns, não permitirem fechar um diagnóstico, o profissional solicitará exames mais acurados para determinar o que afeta a saúde do paciente. No ambiente não é assim, mesmo em situações de crise, nos apoiamos no discurso de que “segundo as normativas a água é segura”. Utilizamos um conjunto de indicadores que não dão mais conta dos impactos que os corpos hídricos sofrem atualmente.

IHU On-Line – Os rios do Sinos, Jacuí e Caí são considerados os mais poluídos do Rio Grande do Sul. O que a análise microbiológica das águas desses rios revela sobre a qualidade das suas águas?

Fernando Rosado Spilki – Nossa experiência nesses corpos hídricos é de que, ainda que persista uma série de poluentes químicos que podem ser associados a atividades industriais e rurais, há uma massiva contaminação que tem origem no esgoto doméstico. Até em áreas rurais na Bacia do Sinos, por exemplo, há um impacto maior da falta de tratamento de dejetos das casas onde residem as famílias nas propriedades rurais do que mesmo de dejetos animais ou defensivos agrícolas.

IHU On-Line – O senhor costuma afirmar que evoluímos técnica e metodologicamente, mas seguimos usando parâmetros de 30 ou 40 anos atrás. O que isso significa? Por que os marcadores de coliformes fecais ainda são utilizados para avaliar a qualidade da água e por que eles não são os mais adequados para analisarmos a qualidade da água?

Fernando Rosado Spilki – O problema que se observa é que grande parte desses indicadores não dá conta de questões importantes sobre o tipo e grau de contaminação da água de captação que temos hoje disponível. Indicadores como os coliformes fecais (ou termotolerantes), por exemplo, eram adequados quando as maiores preocupações no que se refere a doenças de veiculação hídrica eram enfermidades praticamente inexistentes em nossas condições, como cólera, febre tifoide etc.

Já de muitos anos para cá, as gastroenterites virais e causadas por protozoários, além de outras infecções bacterianas, têm uma importância muito maior e não raro encontramos esses agentes na água, a despeito dela estar livre de coliformes fecais.

IHU On-Line – Em que aspectos seria necessário avançar para garantir uma análise da água mais completa?

Fernando Rosado Spilki – Precisamos avançar especialmente em duas frentes: 1) incluir indicadores de contaminação microbiológica que efetivamente estejam associados às doenças de veiculação hídrica mais prevalentes hoje em dia, especialmente vírus entéricos e protozoários; 2) revisar valores máximos permitidos de poluentes e contaminantes com base no risco à saúde humana, e não em uma inferência baseada na possibilidade ou não de captar água, como fazemos atualmente.

Em nossos estudos realizamos análises de vírus entéricos em água com uma periodicidade no mínimo mensal e já é possível caracterizar a água quanto a risco para a saúde

IHU On-Line – Com que frequência essas análises microbiológicas são feitas no estado e no país e de que maneira os resultados são discutidos e utilizados para rediscutir os parâmetros acerca da qualidade da água?

Fernando Rosado Spilki – A análise microbiológica da água para distribuição tem periodicidade no mínimo diária no local onde a água é produzida e há inspeções regulares na rede de distribuição. Mas se avaliam basicamente os coliformes fecais, ou seja, outros contaminantes emergentes não são avaliados. Em nossos estudos realizamos análises de vírus entéricos em água com uma periodicidade no mínimo mensal e já é possível caracterizar a água quanto a risco para a saúde, por exemplo.

IHU On-Line – De que maneira as análises microbiológicas da água nos ajudariam a avançar em relação a detectar qual é de fato a qualidade da água que bebemos?

Fernando Rosado Spilki – Investimentos em um monitoramento microbiológicomais completo e rigoroso da qualidade da água teriam vantagens facilmente observáveis em curto e médio prazo: redução dos índices de atendimento e hospitalização por doenças veiculadas pela água, especialmente na população infantil, que é a mais atingida; qualificação de todo sistema de captação e potabilização, já que seriam necessários investimentos e melhorias nas operações de estações em virtude da regulação com esses patógenos, que são mais resistentes ao tratamento; melhor aferição da performance e efeitos positivos de eventuais melhorias nos sistemas de tratamento de esgoto e água.

IHU On-Line – O que falta para avançarmos quando se trata de analisar a qualidade da água?

Fernando Rosado Spilki – No passado o uso de indicadores avançados demonitoramento microbiológico da água passava por uma questão importante de custo de equipamentos e reagentes. Esses custos reduziram muito ao longo dos últimos anos, muitas análises de contaminantes químicos adotadas rotineiramente em grandes companhias hoje são mais caras que análises que fazemos para vírus entéricos, por exemplo. O grande desafio ainda resiste no entendimento da necessidade de fazermos essa mudança e no treinamento de pessoal nessas técnicas, na construção de capacidades.

IHU On-Line – Além dos coliformes, quais são os microrganismos que causam problemas à saúde e são encontrados na água que bebemos?

Fernando Rosado Spilki – Vírus entéricos causadores de gastroenterites, tais como adenovírus, norovírus, rotavírus, entre muitos outros; vírus causadores de hepatite transmissíveis pela água: os vírus da hepatite A e E; protozoários causadores de diarreias, especialmente Cryptosporidium e até bactérias que causam desde diarreia, como Salmonella, até úlcera estomacal, como Helicobacter pylori.

IHU On-Line – Seria adequado alterar a legislação brasileira para determinar melhor quais são os parâmetros do que é considerado água potável hoje? Que alterações seriam necessárias?

Fernando Rosado Spilki – Conforme mencionado antes, uma mudança é viável em virtude de que o custo é hoje mais acessível e as metodologias se tornaram cada vez de mais fácil execução. A inclusão de novos parâmetros, especialmente microbiológicos, é prioritária para lidar com os atuais desafios de proteção à saúde púbica. A revisão dos valores máximos permitidos à luz de análises de risco e não apenas de preenchimentos de demandas de produção também é igualmente importante.

IHU On-Line – Muita pessoas preferem beber água de poço ou água mineral. É possível avaliar qual é a qualidade da água mineral e da de poço? O que as análises microbiológicas demonstram sobre essas águas?

Fernando Rosado Spilki – É interessante discutir esses dois tipos de água em um mesmo contexto, pois na verdade são diferentes apresentações de água subterrânea. E aí justamente reside uma questão importante: a água subterrânea brasileira, em muitos locais, está bastante impactada por contaminantes.

Obviamente existirão poços e fontes de água mineral que terão uma condição de qualidade melhor, mas em muitos casos, conforme o que observamos, lamentavelmente tanto a água de poço quanto amostras de água mineral engarrafada apresentam contaminantes. Novamente, à luz da regulação atual, muitas dessas amostras passariam como seguras, mas quando se analisam outros parâmetros que não os previstos em legislação, apresentam contaminação.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Fernando Rosado Spilki – A despeito de mudanças no monitoramento de contaminações, o Brasil precisa de uma revolução no que tange ao saneamento ambiental. A elevação das taxas de coleta e tratamento de esgoto no país (hoje em 50% e 30% respectivamente, em números oficiais) tem de ser arrolada como prioridade, tal como educação, saúde e segurança.

Em um segundo momento, temos de lutar pela instalação de sistemas de tratamento terciário de água e esgoto, com vistas a evitar a disseminação de patógenos. E nesse percurso, sem dúvida, evoluir muito no monitoramento de contaminantes microbiológicos e poluentes químicos.

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